Eu fui uma jovem de tranças longas e um sorriso contido, Maria Alzira, que via o mundo através das lentes de um sonho antigo. Minha juventude era feita de silêncios longos e a espera por algo que eu nem sabia nomear. O meu mundo era pequeno, mas o meu coração sempre soube que a imensidão viria, e ela veio no formato mais simples e avassalador: um par de olhos gentis e um sobrenome fácil de amar.
Eu o conheci num baile de formatura, sob a luz morna dos lampiões. Ele não era o mais eloquente, mas era o único que me olhava como se eu fosse a melodia, e não apenas uma espectadora da dança. Foi um encontro de almas que reconhecem a eternidade em um instante. E o primeiro toque... Ah, o primeiro toque de mãos, ao me ajudar a descer um degrau. Não foi um arrepio, foi a calma que se instala quando finalmente se encontra o lar. Nossas peles se reconheceram antes de nossos lábios, e aquele breve contato selou um juramento silencioso.
O nosso momento, aquele que carregamos como um amuleto, não foi um pedido de casamento grandioso, mas a noite em que ele ficou em vigília ao lado da minha cama, quando eu estava doente e sem forças. Lembro-me dele recitando Machado de Assis, sem saber se eu ouvia ou não, apenas para manter a voz humana perto do meu medo. Naquela quietude, soubemos que seríamos para sempre, não nos dias de sol, mas nas longas e frias madrugadas de inverno.
O adeus foi o momento mais difícil, mas também o mais puro. Naquele quarto de hospital, com o cheiro de álcool e silêncios pesados, eu segurei sua mão, agora tão leve, e murmurei: "Eu te amo, meu amor. Vá em paz." Ele me deu um último aperto, um sussurro de vida que se esvaía. A dor é um rio fundo, eu sei, mas ela me ensinou que o amor não é uma presença física, mas uma atmosfera.
Ele não se foi. Ele está no cheiro do café coado que ainda faço do jeito que ele gostava, no banco do jardim onde o sol bate mais bonito, e na canção que toca aleatoriamente no rádio. Sinto a presença dele no calor da minha xícara e no modo como o tempo insiste em passar mais devagar. É uma saudade bonita, que me aquece a alma, uma prova de que a nossa trama, meu querido, não era feita de fios visíveis, mas da eternidade que se esconde em cada memória. O nosso amor, Vítor, é o meu presente mais constante.